Juízo do dente
Julho 12, 2008
Olha que maravilha meu siso esquerdo superior está nascendo. Dor e sofrimento para o dente aparecer e mais dor e sofrimento para tirá-lo. Sem contar que esse novo elemento está acabando com minha organização bucal, que já era precária.
Acredito que o siso seja associado ao juízo por geralmente aparecer aos 18, a maioridade. O que não tem nada haver. Deve ter sido um dentista que inventou isso. Talvez esse predicado tenha sido dado para que o surgimento desse dente tenha algum lado positivo. Afinal, ele é um dente inútil que nasce para ser arrancando, ou no máximo, ficar bem quietinho lá no fundo da boca.
Dizem que, de acordo com alguma teoria da evolução, a tendência dele é não aparecer mais. Sorte de nossos sucessores e azar dos dentistas deles. Tudo bem que a cada geração que vemos crescer notamos menos juízo, mas não acredito que ele vá sumir junto com o siso. Acho que isso tudo não passa de uma mera coincidência.
Agora que “criei juízo” graças ao nascimento do meu siso vou tirá-lo. Mas não acaba por aí. Ainda virão outros três desses.
Quem cala, sente
Julho 4, 2008
Há textos que foram feitos para serem lidos silenciosamente. Quando se transformam na voz do leitor perdem a própria voz.
Abrindo portas
Julho 3, 2008
Hoje choveu. Mesmo quando a chuva parou o dia seguiu cinza, o típico dia deprimente.
Estava voltando para casa de carona, cantando muito no carro com o som a todo vapor quando eu e meu motorista nos deparamos com uma ruela cogestionada, demoramos 8 minutos para andar uma quadra da rua secundária, que já não parecia tão secundária. Nesse tempo, que para mim foi uma eternindade, com o carro parado e a empolgação de antes se esvairindo, reparei numa velhinha numa janela. Era uma casa antiga, dois andares, com a porta na calçada e flores nas janelas, sem flores. A velhinha espiava. Não sei se o movimento de hoje era atípico ou não, aquela ruela não fazia parte da minha rotina, mas a expressão da senhora era de rotina, de tédio, era o reflexo da demora do trânsito. De imediato pensei “não quero ver minha vida acabar de uma janela”. Vou aproveitar até o fim dos meus dias tudo que a vida oferecer de mais emocionante, não quero coisas paradas como o congestionamento, o tédio. Não quero acabar como uma expectadora, não nasci pra isso e não vou morrer nisso. Quero que as flores da minha janela estejam coloridas e nos dias de chuva não ficarei na janela, descerei para me molhar. Vou ficar na porta e não na janela.
Os incomodados que se retirem
Julho 1, 2008
Estou no meio de uma crise de euforia. Logo, uma boa hora pra escrever.
Gosto do jeito que incomodo as pesssoas. Todo mundo gosta de incomodar. É uma forma de saber que o outro se importa contigo, mesmo que seja querendo tua morte.
Sexta-feira de noite/madrugada/manhã de sábado fiz (fizemos) muito barulho no meu apartamento. Estava felicíssima que nenhum vizinho havia reclamado. Mas é óbvio que minha alegria durou pouco… Na segunda de manhã recebo um ofício por baixo da porta registrando a reclamação da vizinhança. Ok, prometo me comportar. A parte divertida da história não foi não deixar o pessoal do prédio dormir, mas sim ganhar o ódio da síndica, que eu já odiava. Agora sei que o sentimento é recíproco porque ontem, estava eu caminhando na rua e vejo a velha. Eu indo e ela vindo. Ao se aproximar de mim, ela atravessa a rua… Sim, ela me odeia HAHAHA E ainda vai ter que me aturar por um bom tempo.
Incomodar é uma arte. Existem várias formas de se fazer isso. Ser pentelho, por exemplo, é uma forma que não me interessa. Pedir favores e coisas emprestadas o tempo todo, também não. Ligar quando a pessoa esta ocupada ou ficar chamando a atenção no messenger idem. Eles não são muito inteligentes.
No caso da minha síndica, irritei ela. Tornei o sentimento recíproco e sem muito esforço. Mas a maneira mais divertida de ser persona non grata é a indireta, quando tu nem faz nada, mas o(a) fulano(a) não gosta de ti. Quando tu descobre que incomoda desse jeito… ah! é prazeroso!
Tu pode estar lendo e pensando: “cruzes! essa guria é uma idiota” ou algo do gênero. Calma… pode admitir que tu gosta de sentir que afeta o outro, mesmo que de uma forma negativa. Que as vezes afetar da forma negativa é a melhor forma de tocar alguém.
Existem umas cinco páginas de comunidades no orkut fazendo referência a esse tipo de incômodo. A maioria diz “te incomodo? que pena”. Esse “que pena” é puro desprezo. É a sensação boa, a sensação de superioridade que se tem incomodando. E pelo visto, não sou a única que sinto isso.
Se este post fizer com que tu te sinta incomodado, tanto pela quantidade de vezes que eu repito a palava “incomodar” e suas variações tanto pela identificação com o texto, terei cumprido meu dever. Talvez seja esse o meu dever na terra… desenvolver essa arte.
“Um elefante incomoda muita gente… Dois elefantes incomodam muito mais” Musiquinha clichê para as pessoas que gostam de incomodar.