Saudade
Novembro 28, 2008
(…)
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
Porto Alegre é um inferno hoje. Bendito seja o vento que ainda teima em soprar refrescante.
Ele estava na parada. Há quinze minutos esperava o ônibus.
Ela chegou. Ficou virada de costas, olhando fixa para a rua, com pressa de que o T5 chegasse.
Ela cansou de encarrar a rua. Ele aproveitou a deixa quando seus olhares se cruzaram.
De antemão já se desculpou pela intromissão. Ele só queria elogiar o perfume dela. Muito bom. Ela, encabulada, responde que o vento espalhou o cheiro.
Ela volta a fitar a rua. Ele mergulha no relógio, estava atrasado.
Os dois esperaram o ônibus em silêncio por mais dez minutos.
Só
Novembro 24, 2008
Tenho fome, algumas moedas e solidão.
Conversa de Salão
Novembro 20, 2008
Sábado à tarde. Os únicos estabelecimentos abertos na cidadedezinha de 4 mil habitantes são as bodegas mil e os três salões de beleza.
E lá fui eu fazer as unhas. No salão, estavam a proprietária e também manicure (M1)- que foi quem me atendeu – outra manicure, de 16 anos, (M2) e outra cliente (C2).
Agora acompanhe o diálogo interessante entre essas quatro mulheres:
Eu: Homem não presta. Não adianta mais procurar.
M1: Quando o cara é legal e bonito, é gay.
C2: Acho que já se nasce gay.
M2: Dizem que não é genético, mas eu acredito que tem alguma coisa haver.
Eu: Ah, talvez não seja genético, mas acho que tu já nasce com essa tendência e vai manisfestando ao longo da vida.
C2 e M2 concordam.
Eu: Também não acho que seja uma questão de ser, mas sim de gostar. Tu só tem um gosto diferente.
M1: Quem é gay é porque tem um espírito enconstado. Daí tu vai até a Igreja e se liberta e volta a ser uma pessoa normal. Porque a sagrada escritura é clara: varão que nasce varão é varão. Não existe meio termo. Esse negócio de gay é coisa de encosto.
Silêncio constrangedor.
C2: É, sei lá.
E a gente troca de assunto.
Não é à toa que ela ganha quatro reais pelo serviço de manicure. E provavelmente não vai ir muito longe disso.
Presença de Anita
Novembro 17, 2008
Anita, cadela!
Deixou uma cicatriz em mim.
Tentei, em vão, te segurar ao meu lado.
A corda queimou meus dedos
Enquanto ela corria para longe.
Foi atrás do primeiro macho que encontrou no caminho.
Anita, cadela!
De castigo, não te levarei passear amanha.
Tuas roupas se misturam com as minhas na cadeira e tu nem estas aqui.
Tuas coisas jogadas pela casa como se eu já não tivesse tralha suficiente pra guardar.
Preciso me livrar do que é velho. Preciso reciclar os papéis. Queimar os tecidos.
Incendiar essa casa. Queimar toda a sujeira e toda a sobra.
Titia
Novembro 17, 2008
Sete horas. Voltando para casa. Horário de verão. Como uma montanha-russa, meu trajeto tem uma enorme subida que depois despenca. No começo da descida, uma combi estava parada na sinaleira. Duas meninas com rabos de cavalo e outros apetrechos no cabelo estavam penduradas na janela do banco da frente da combi branca encardida. Quando passei as duas gritaram “Oi tia!” abanando loucamente. Olhei pra trás e as duas se esconderam rapidamente, rindo envergonhadas e travessas.
Não me senti exatamente adulta, mas velha. Eu já estava me sentindo mais velha… Era minha segunda semana no trabalho e andei notando rugas no meu rosto. Até ontem era eu a menininha que abanava para desconhecidos na rua. A idade começa a pesar nas costas quando tu tens que te preocupar com a organização da casa, a vida das plantas, as contas que venceram, o dinheiro para comida, os trabalhos da faculdade, a corrida para o trabalho, a falta de tempo, quando te chamam de tia e quando teus amigos começam a casar…
E neste final de semana fui visitar Ilópolis, a cidade onde passei os anos dourados da minha infância. Além das pessoas não reconhecerem essa “moça” aqui, o motivo que me levou para lá é outro sintoma de adultisse: casamento. Não o meu, claro. A noiva estava lindissima. Fui tudo tão bonito. A última vez que tinha visto um casamento foi nesta mesma igreja, mas eu era áia e tinha alguns 12 a menos. Para a larissa-criança esta celebração signicava colocar um vestido que coçava, comer docinhos e bater nos guris depois. Desta vez, vivi diferente. Chorei. Era tudo tão mágico… O casal irradiava nervosismo e alegria, assim como deve ser num casamento de verdade. Mas a mulher vestida de branco foi a menina que me ensinou a andar de bicicleta aos 8 anos. Eu sempre me orgulhei de ir com ela a pé para a escola, afinal, não era toda a criança da primeira série que tinha uma amiga da quarta. E agora, minha vizinha, que brincava de barbie comigo, casou! E todas as outras meninas que participavam do nosso grupo de covers das chiquititas eram madrinhas. Todas na faculdade, com noivos, trabalhando… Mulheres! “Você começa a ficar ficar velha quando seus amigos casam” -foi isso que minha irmã disse para consolar minha surpresa. O lugar onde eu fui criança agora me mostrava como o tempo tinha pesado. Quando fui felicitar aos noivos, ela me abraçou e falou: “Casei”, mas o que realmente me assusta foi a conclusão dela “E a próxima vai ser tu”. Depois disso, encarnei a gordinha-criança, me pendurei no vestido da minha mãe e só soltei quando ela me levou pra casa dormir.
Agora, no auge dos meus quase-vinte anos, eu sou a tia que devolve para as meninas um sorriso nostalgico de quem tem que crescer.
Ócio criativo
Novembro 17, 2008
Final de semestre. Aquela correria. Trabalhos até tarde. Sem tempo para nada, e o pior, sempre arrumamos tempo paras coisas divertidas e deixamos o importante pra última hora.
Hoje é um dia estranho. Não estou atrasada. Cheguei cedo em casa. Está tudo arrumado, tudo limpo aqui. Eu poderia adiantar algum trabalho, mas não tenho vontade. Eu poderia dormir mais um pouco, mas acabei de acordar. Eu poderia assistir TV, mas já não sei fazer isso. Eu poderia comer, mas acabei de almoçar. Eu poderia jogar freecell mas também não quero. Estou inquietamente ociosa. Parece que tudo perdeu a graça. Queria me deprimir, mas nem isso tá dando. Tenho tempo para mim mesma, logo, não sei o que fazer com ele. Então fico aqui, ouvindo música e me irritando.
E eu só crio impaciência. Porque, afinal, quando tu tens tempo, tu corre o risco de pensar na tua vida, de refletir sobre ela. Por isso que, durante toda a vida, tentamos nos manter ocupados. Qualquer coisa serve, mesmo inútil, desde que não nos deixe ter tempo para nós mesmos.
Tic tac
Novembro 17, 2008
Não tenho tem nem pra mim, que dirá pro blog.