Novembro 12, 2008

Os teus pés
Pablo Neruda

Quando não te posso contemplar
Contemplo os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,
Teus pequenos pés duros,

Eu sei que te sustentam
E que teu doce peso
Sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,
A duplicada purpura
Dos teus mamilos,
A caixa dos teus olhos
Que há pouco levantaram voo,
A larga boca de fruta,
Tua rubra cabeleira,
Pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
É só porque andaram
Sobre a terra e sobre
O vento e sobre a água,
Até me encontrarem.

Perfil

Novembro 11, 2008

Dormi tarde e acordei cedo para escrever um perfil na cadeira de terça de manha: Redação Jornalística.
Apesar da aparente falta de inspiração, o assunto rendeu. Talvez por causa do protagonista do texto.
E meses depois, sai meu primeiro texto sobre meu encontro com o mestre Humberto Gessinger.
Abortei o título porque não achei nada bom o suficiente.

Humberto Gessinger

Uma hora da tarde. Esse foi o horário marcado para ir até a casa do músico Humberto Gessinger no simpático bairro Bela Vista, em Porto Alegre. Na correria da turnê do último disco do Engenheiros do Hawaii – Novos Horizontes – a entrevista foi marcada por e-mail, para uma quarta-feira a tarde, quando ele falou sobre seus últimos projetos e novidades que está constantemente perseguindo.

O sol do meio dia ainda brilhava forte. Gessinger abre a porta da cobertura do prédio de 3 andares. Não é preciso que ele se identifique. Seu olhar é tímido. Difícil entender como algumas pessoas o tacham de arrogante. O cabelo loiro, com aparência seca, que já exibiu até um moicano, raspa nas orelhas e é o maior indício de velhice na aparência do cara que vestia um moletom comprido com capuz.

A sala de estar tem um ar aconchegante e colorido. Simples, para um “popstar”, porém adequado para a homem caseiro e cansado de hotéis. Provavelmente decorada pela esposa Adriana. O violão elétrico repousava em uma poltrona, como se fizesse parte da família. As paredes e prateleiras mostram o que se percebe inclusive nas músicas de Gessinger: um pai coruja. Vê-se fotos de sua filha Clara durante todas as idades espalhadas pelo agradável ambiente, inclusive um desenho que ilustrou o clipe da música “Parabólica”, uma homenagem do genitor à sua princesinha.

Atirado no sofá, talvez encolhido por sua timidez, foi se sentindo a vontade na própria casa e a entrevista virou uma conversa descontraída. O gravador que registrou meia hora de diálogo, também recolheu muitos “ãns” e “nés” durante as respostas de Humberto.

E claro que ele usou uma frase pronta de uma de suas músicas. A escolhida foi a citação “só a mudança é permanente” – trecho da letra de “Duas noites no deserto”, que ilustra as transformações na carreira do cerne do Engenheiros do Hawaii.

Depois de tocar baixo, piano, guitarra, gaita de boca, bandolim e ser vocal na banda gaúcha ele ainda não se sente satisfeito musicalmente. Insere na listra de instrumentos a viola caipira, que “dá um som mais adulto” afirma o compositor.

O autor do livro “Meu pequeno gremista” é famoso por ser um torcedor fanático. Mas Humberto também é atleta. Desde criança pratica tênis. Agora, revela que o esporte perdeu um pouco do fascínio, porque finalmente entendeu a lógica e aprendeu a jogar. Ele admite ser movido pelo desafio e pelo novo.

Trans ponto

Novembro 7, 2008

O espelho mostra o que minha cara reflete: dias sem dormir, sem comer, sem acordar. Tentativa de fugir da realidade, mergulhando em um universo paralelamente particular onde as tintas ganham vida, as comidas têm outro sabor e os banhos são demorados. Tentativa de fugir de mim mesmo. Mas, de repente não parece mais tão divertido. E todas as loucuras parecem adolescentes demais, burras demais. Quem me faz sair dessa doida fantasia são as pessoas da parede que, à noite, sussuram no meu ouvido palavras de dor e sofrimento de verdade. Qual o motivo para tudo isso? Talvez seja culpa da vontade de viver misturada com os impulsos bizarros. Enfim, chega. Vou voltar a escolher uma carreira, uma família, uma televisão enorme, lavadoras, carros, CD players, abridores de latas elétricos, saúde, colesterol baixo, plano dentário. Vou voltar a fazer concertos em casa e pensar quem sou no domingo de manhã. Vou sentar-me no sofá e ficar vendo shows chatos na TV e comendo porcaria…

Novembro 4, 2008

Calor infernal. Louça suja. Roupa espalhada. Tanque entupido. Parede vermelha. Leituras sem fim. Tempo voando. Afta chata. Telefone mudo. Dinheiro gasto. Músicas desaparecidas. Compronissos furados. Lixo acumulado. Garganta arranhando. Porque hoje é terça-feira.

Mensagem

Novembro 3, 2008

Eu não fui. Mas cheguei.
Só pra te contar que cheguei a uma e trinta e cinco e nem precisei da tal história da entrevista de cinco minutos e que fico feliz pelo livro, senão me sentiria culpada. E eu não fui.