Ensaio sobre guarda-chuva

Janeiro 19, 2009

Não consigo entender como a ciência e a tecnologia, avançadas como estão, não inventaram ainda alguma coisa melhor que o guarda-chuva. Porque, convenhamos, ele é inútil. Só serve para o nosso psicológico ficar seco. Tudo bem, protege um pouco da cabeça também, mas não impede que nos molhemos. As pernas são as principais prejudicadas.  E quando a chuva ataca verticamelmente, já viu. Além disso, é um objeto completamente descartável. Perder guarda-chuvas é um clássico que existe desde a criação desse objeto. Discreto e jogado em algum canto, é extermamente passível ao esquecimento. A estrutura deles também não é outro defeito. Ventos fortes facilmente os destroiem e eles nos deixam na mão quando mais precisamos.  Seria tão mais prático se ficassemos impermeáveis nos dias de chuva. Não estou falando de capas que também não são nadas práticas. Queria uma coisa nova que realmente funcionasse.
Agora deixo aqui meu testemunho, para justificar a raiva que sinto pelos guarda-chuvas.

Segunda-feira. Acordo com chuva e metade dos meus planos vão, literalmente, por água abaixo. Mas trabalhar é preciso. E lá fomos nós, eu e meu guarda-chuva. O caminho era longo para um dia molhado. Meia hora. Apesar do tenis furado e a água entrando no meu pé, os primeiros 2 minutos foram tranquilos (novas regras do português). Até que o vento começou a incomodar e eu tive que ir manobrando o guarda-chuva. Já não conseguia mais cuidar os carros ao atravessar a rua, já não conseguia ver os postes na frente nem as lixeiras nem os vasos de plantas. Estava parcialmente cega. Minha visão era encoberta pelo tecido preto. Quando eu já havia percorrido metade do caminho o maldito vento foi cruel. Meu guarda-chuva virou do avesso e virou de novo e virou de novo. O resultado foi metade da armação quebrada e eu, que já estava toda enxarcada, fiquei mais desprotegida ainda. Fui levando assim, cuidando para que os ferrinhos quebrados não acertassem meus olhos e tentando usufruir da parte que ainda estava inteira. Atravessei o viaduto da João Pessoa sem nem contemplar a vista. Eu ia xingando tudo com todos os nomes feios que minha mãe não gostaria de ouvir. Só faltavam 3 quadras. Mas o vento não dava trégua. Eu já estava ensopada. A chuva era fininha e gelada. Num surto de raiva e libertação joguei o tal guarda-chuva na primeira lixeira que encontrei. Pronto. Assumi meu banho de chuva e fui contornando os prédios em busca de marquizes amigas. Durante todo esse trajeto me pergutei: “por que cargas d’água não chamei um táxi?”. Eu e minha mania de andar a pé… Enfim cheguei. Não tenho mais guarda-chuva. Mas pelo menos não me iludo mais quanto a não me melhor. Cheguei pingando de chuva e mau humor. E agora estou aqui, escrevendo, sentanda na minha bunda molhada, de pés descalsos no novo emprego.

Uma resposta para “Ensaio sobre guarda-chuva”

  1. ana disse

    odeio guarda-chuva.

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