Sapatinho de cristal
Fevereiro 4, 2009
No viaduto da João Pessoa um par de tamancos beges quebrava a rotina do cenário. Sozinhos. Velhos e fora de moda. Fiquei me perguntando como vieram parar ali.
Talvez tivessem pertencido a alguma suicída que, na noite passada mergulhou na rua sempre movimentada e deixou para trás os calçados de cor ser graça. Sem eles seria mais fácil pular. Até porque não haveria a preocupação de eles voarem e ainda acabarem acertando alguém e chamando atenção para o corpo que ia em direção ao asfalto. Descalçar os tamancos foi um ritual. Antecedeu o ato de descalçar a vida. Era como se ela se despisse de tudo que a ligava a esse mundo. E assim ela os deixou no viaduto.
Talvez eles tivessem pertencido a alguma noiva enamorada que era carregada nos braços de seu amor. O casal feliz, preso em seu mundo de rosas não teria percebido quando os tamancos beges cairam dos pés da moça. Ela nem sentiu falta deles. O seu homem era o seu chão. E ali eles ficaram, abandonados, trocados por uma paixão.
Ou ainda eles poderiam ter pertencido a uma dama vaidosa do centro da cidade, que hoje é uma velhinha sem forças para calçar um salto. E quando eles viraram um estorvo no armário foram rejeitados por ela e jogados na rua. Ali, foram acolhidos por uma mendiga de pés descalços. A humilde mulher os achou em algum saco de lixo desses prédios antigos do centro e os levou consigo. Mas a vida na rua não parece fácil e ela cansou de andar com os tais tamancos beges que machucavam mais ainda seus pés calejados. Ela sentou para descançar no meio do viaduto e ali ficaram os sapatos, rejeitados mais uma vez.
Mas enquanto eu caminhava e pensava em todas essas possíves ex-proprietárias, um senhor passou por mim e arriscou “a cinderela passou por aqui”.