Não, não é cansaço…
É uma quantidade de desilusão
Que me estranha na espécie de pensar,
É um domingo às avessas
Do sentimento
Um feriado passado no abismo…Não, cansaço não é…
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.Não. Cansaço por quê?
É uma sensação abstrata
Da vida concreta -
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como…
Sim, ou por sofrer como…
Isso mesmo, como…Como quê?
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)Porque oiço, veja
Confesso: é cansaço!…
Álvaro Campos
http://www.cfh.ufsc.br/~magno/campos.htm
Eu queria escrever um poema.
Queria agora que brotasse um genio de mim.
Droga. Eu devia ter um papel, uma caneta tinteiro. Muito mais romântico. Muito mais poesia.
Impossível escrever bonito nas teclas. Impossível escrever bonito com minha letra feia.
Não me relaciono bem com papel. Talvez por ver minha cara suja nos garranchos. Mas sempre justifiquei a pressa do meu pensamento e a lerdessa das minhas mãos. Se é pra escrever bonito, elas demoram. Se é pra caprichar, que seja também nos traços. E aqui na tela já sai tudo assim. Uniforme. Ajeitadinho. Medidinho. Sem nenhuma personalidade. Com ou sem serifa. Nenhum borrão. Tu nem imaginas o quanto refiz essa frase. Nada de capricho. Nada de marcas. E o pior é que tudo que é escrito aqui já sai assim, exposto. Sem gosto.
Livremente inspridado em mesas de bar
Março 31, 2009
Minha consciência me faz voltar pra casa antes do sono vir e de todas as garrafas ficarem vazias. Enquanto isso vejo uma garota devolver a cerveja pelo gargalo no momento em que seu acompanhante lhe dá as costas, muito cavalheiro, para pegar mais bebida e mais. Coitado, ele pensa que está embebedando ela e ela engana ele fingindo uma embriguês com risadas escandalosas. E eu assisto a tudo. Rio de tudo. Já pensando em contar pra vocês. Porque eu sabia que chegaria em casa cedo. Sabia que o sono já teria me abandonado e que eu iria precisar de um passatempo como esse de contar o que vi na mesa do lado. Importante o detalhe do beijo dele na testa dela antes de sair para o bar. Que cena. Quase obscena. Tanta carinho. Tanta mentira. E a tal mesa do tal casal era tão limpa e organizada. Olha só pra nossa: Rótulos, toquinhos e poças. Bem escarancarado, como nós, que fazíamos tantos planos e já rejeitavamos a cervaja na cara dura, já trocavamos de copos e faziamos questão de tudo assim.
novos caminhos
Março 25, 2009
Gosto de caminhar. A noite portoalegrense é muito propícia. Andar por aí meio sem rumo, só pra não ficar com as paredes. Ou ter uma boa companhia, com um bom papo, com boas pernas. Ultimamente acaba sempre lá. Gosto de uma esquina. Uma esquina do Bom Fim, quase Rio Branco. Gosto de deitar na calçada e olhar praquele prédio antigo. A pedra fria e os pedestres pisando na gente são detalhes tão pequenos que não nos incomodam. Os carros ou caminhoes de lixo viram parte da paisagem, quase camuflados. Os ratos correndo pelos fios de luz são os artistas da noite. E a gente fica ali só apreciando o espetáculo. Todos eles. É um ótimo lugar para se olhar as estrelas. É um ótimo lugar pra ficar contigo, ficar comigo.
Rotina II
Março 25, 2009
Eu parada na frente do computador. Um colega de trabalho – senhor mais velho, de voz bem grave que não ve a hora de ser demitido – me despertou passando a mão na minha cabeça e dizendo num tom carinhoso “querida”. O cansaço devia estar piscando em neon na minha testa.
Hoje é meu último dia de trabalho aqui. Não vou mais ver o Guaíba de camarote. Assistir o pôr do banheiro. Cheguei até a ficar triste. Mas depois de uma tarde toda aqui, dei graças a deus. Posso achar outro lugar pra ver o rio. De preferência, um lugar calmo e tranquilo.
Não adianta. Eu gosto do ponto final. As vírgulas me entediam. Preciso sempre de novos começos. E ponto.
Meu Melhor Amigo,
Março 4, 2009
Foi dia dois de março de 2004. Uma terça-feira quente. Eu usava uma calça de ginástica branca e mesmo assim tu foste comigo até a caixa d`água. Tive que ficar na calçada. Tu pisava na rua. Só assim pra eu ficar maior e te alcançar. Mas tu me fazia tocar o céu, onde quer que eu estivesse. Depois desse dia milhares de coisas aconteceram entre a gente. Brigas deliciosas, brincadeiras idiotas, momentos mágicos, desencontros saudosos e encontros inesperados. Quantas vezes chorei por ti… Mas quantas alegrias tu me trouxeste! Já passamos por milhares de coisas juntos. Praticamente tudo que duas pessoas podem passar. E se nossa amizade mudou com o tempo foi só para maior e mais forte. Aproveito o dia em que completam-se 5 anos que te conheço pra te contar que tu mudaste completamente minha vida. Pra melhor. Não dá pra explicar o que eu sinto por ti. Um amor imenso, transbordante, surreal. Um orgulho explosivo que só cresce. Uma saudade feliz e dolorosa que me faz lembrar e falar de ti o tempo todo. Sábado a noite passei por aquela pizzaria. Meu peito doeu. Foi físico, talvez por causa da bebida. Mas doeu. Aí te abracei em pensamento. Não quero nunca te perder da minha vida.