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Maio 10, 2009
Talvez eu devesse escrever sobre ti. E é justamente esse meu problema: a dúvida. Dúvida sobre o que fazer, o que sentir, o que falar. Sobre ir ou rachar.
Rotina III
Maio 8, 2009
Quinta-feira. Frio. Uma confeitaria e um chocolate quente amigo.
Eu estava passando um texto pro telejornal. Treinando várias vezes em voz semi-alta pra conseguir dizer otorrinolaringologista. Um velhinho simpático parou do meu lado. Ficou assistindo. Me senti encabulada. Tirei os olhos do papel e tomei um gole do chocolate. O velhinho perguntou: tu faz teatro? Eu poderia ter dito que sim. Que minha vida é uma mistura de musical com tragédia grega. Respondi que não. Eu estava treinando pra um telejornal. Com certeza ele não esperava por isso. Fez uma cara de estranhamento: Telejornal? Onde? Eu respondi que era na minha faculdade. E ele, que já devia estar se perguntando isso desde que eu falei em jornal questionou: Mas quem morreu? Depois dizem que os jornalistas que são sensacionalistas. Mas as pessoas gostam. Tá aí uma prova. Com um sorriso e um bigode de chocolate quente falei: Ninguém. Nós só damos notícias boas.
Cheguei em casa e – não me lembro agora como, porque o sonho estava confuso – tu estavas aqui. Estavas no meu banheiro conversando com a suéca com todas as lâmpadas funcionando. Não havia mais coisas estragadas no apartamento. Encontei vocês seguindos as risadas. Por um tempo fiquei tentando enteder aquela cena. Como tu estavas aceitando ela? E também tu não me davas a mínima atenção. Não me via. Eu era bem pequena no meio de vocês dois. De repente inflei! Te joguei contra a parede. Num canto. Te segurei pelo pescoço. Eu era forte. Tu viraste um ratinho na minha mão enfurecida. Tu estavas vermelho e apavorado. Eu cuspia e gritava na tua cara. A interrogaçao insessante ”POR QUE TU ME ODEIA?” produzia eco no pequeno banheiro sufocante. Acordei com essa pergunta na cabeça. Será que um dia vou ter a resposta, pai?