Ah! Tu gostavas de cozinhar. Mais do que de mim. Até me irritava com tua mania de fazer comidinhas caprichadas quando eu só queria uma pizza congelada.
E o que sobrou de nós?
Um potinho de curry na despensa.
Vou esquecer minha bolsa, meus livros, minhas roupas pelo caminho, pelo teu caminho. Quem sabe assim tu segue.
Tou tentando te mostrar a trilha. Tá na cara. Como eu, babe.
Então, estou vivendo o que o Caio Fernando Abreu chama de ”ciclo seco”. Foi essa a melhor denominação que achei pro meu atual estado de espírito. Um fenômeno que ninguém nota. Ajo normalmente. Com descaso e indiferença. Mas cadê a tal alegria de viver? O prazer em fazer as coisas se perdeu pelo caminho. Nada me atrai. Nada me distrai. As coisas de fora já não me atingem e a vida torna-se um marasmo robótico.
Não se confunde com “depressão”, quando você deixa de fazer o que devia, ou com “euforia”, quando você faz em excesso o que não devia. Em ciclo seco faz-se exatamente o que se deve ou não, desde escovar os dentes de manhã ou beber um uísque à tardinha, mas sem prazer. Nem desprazer: em ciclo seco apenas se age, sem adjetivos. A propósito, ciclo seco não admite adjetivos — seco é apenas a maneira inexata de chamá-lo para que, dando-lhe um nome, didaticamente se possa falar nele.
Mas Caio afirma que isso passa. Diz também que todo mundo tem os seus em alguma etapa da vida. Na verdade, nem ligo muito. Na verdade, já não ligo pra nada.
Do quarto do lado, vozes. Da janela da frente, luzes. Do andar de cima passos. Da rua, carros. Da minha cama, insonia.
Rotina V
Junho 4, 2009
Hoje coloquei a tampa na minha pasta de dente. Coloquei as roupas no armário e tirei as louças da pia. Tirei o pó. Tirei o lixo. Desisti de esperar por uma faxineira, afinal, a casa é minha. Organizei minhas maquiagens, meus brincos, meus livros e escolhi a Clarisse pra me acompanhar nesses dias frios.
Rotina IV
Maio 27, 2009
Hoje de manhã saí de casa e esqueci de trancar a porta. Talvez por costume do interior. Se bem que nenhuma cidade, por menor que seja, é segura hoje em dia. Voltei e tranquei todas as fechaduras possíveis. Me tranquei em casa. A rua é perigosa. Virou um faroeste.
Todo mundo é assaltado e tem uma dessas histórias pra contar. Quem, como eu, não tem se diz sorturdo e só espera por seu dia D.
Na semana passada assaltaram um carro na garagem do prédio onde moro. Mesmo com grades altas e cerca elétrica. Os ladrões deram um jeito de burlar toda esse aparato de segurança e arrancar o aparelho de som o automóvel da minha vizinha. Uma coisa tão banal, que acontece em cada esquina, mas me pegou de surpresa quando entrou em meu território. E parece que não é a primeira vez que acontece um episódio de roubo aqui no edifício.
Moral da história: já não estamos protegidos em lugar algum. A rotina vira uma paranóia. Como se fossemos três porquinhos com medo de que o lobo sopre, sopre, sopre e derrube nossa casa seja ela de palha, madeira ou tijolos.
Comédias da vida pública
Maio 27, 2009
Num desses sábados chuvosos de maio resolvi fazer um desses programinhas de solteirona infeliz: ir ao cinema com uma amiga para assistir a comédia romântica e sair de lá sonhando com o príncipe encantado.
Era a primeira vez que eu ia ao novo cinema do shopping IGUATEMI. Sem muitas opções de filmes, até por causa do tema pré-definido por nós. O escolhido foi EU ODEIO O DIA DOS NAMORADOS. O nome prometia uma certa diversão.
Equipadas de muitas guloseimas até rimos da protagonista que tinha um sorriso drogado.
O clímax do filme deveria ser, previsivelmente, quando o mocinho e a mocinha conseguem finalmente ficar juntos e são felizes para sempre. Mas nesse tudo ia muito comédia-romântica até que a protagonista, a que ria doidamente, sai correndo pela rua e de repente pára. Um close nos pés dela, com sapatos rosa-shock e salto-agulha que pisavam em, nada mais nada menos que outra pessoa. Na verdade, era um mendigo, que depois de alguns segundos sendo esmagado olhava para a moço sob ele e perguntava o que foi que eu fiz?. O pior foi todo o cinema rindo. Como diz o velho ditado pimenta no s olhos dos outros é refresco. A desgraça alheia vira piada. Mendigos são palhaços com os quais cruzamos todos os dias nas ruas. Assisti ao resto do filminho atonita. E o que era pra ser diversão acabou como uma frustração social.
Vou contar que mais uma vez molhei minhas pantufas levando uma visita até o portão. Na verdade, molhei dois pares. Estou com os pés nus. Mas também vou confessar que estou com muito vinho nas buchechas rosadas e muito sono nos olhos roxos. Boa noite mundo.
Já nem lembrava como era a chuva. Ela tumultuou completamente meu dia cheio de tarefas, mas também trouxe paz. Entrou nos meus tênis furados, lavou meus pés. Vou ficar com gripe.