Vou esquecer minha bolsa, meus livros, minhas roupas pelo caminho, pelo teu caminho. Quem sabe assim tu segue.
Tou tentando te mostrar a trilha. Tá na cara. Como eu, babe.
Então, estou vivendo o que o Caio Fernando Abreu chama de ”ciclo seco”. Foi essa a melhor denominação que achei pro meu atual estado de espírito. Um fenômeno que ninguém nota. Ajo normalmente. Com descaso e indiferença. Mas cadê a tal alegria de viver? O prazer em fazer as coisas se perdeu pelo caminho. Nada me atrai. Nada me distrai. As coisas de fora já não me atingem e a vida torna-se um marasmo robótico.
Não se confunde com “depressão”, quando você deixa de fazer o que devia, ou com “euforia”, quando você faz em excesso o que não devia. Em ciclo seco faz-se exatamente o que se deve ou não, desde escovar os dentes de manhã ou beber um uísque à tardinha, mas sem prazer. Nem desprazer: em ciclo seco apenas se age, sem adjetivos. A propósito, ciclo seco não admite adjetivos — seco é apenas a maneira inexata de chamá-lo para que, dando-lhe um nome, didaticamente se possa falar nele.
Mas Caio afirma que isso passa. Diz também que todo mundo tem os seus em alguma etapa da vida. Na verdade, nem ligo muito. Na verdade, já não ligo pra nada.
Minha mãe conta que, uma vez, quando eu era bebe de poucos meses, estávamos viajando. Meus pais faziam muito isso. Viajar, sabe. Não se tinha muito o que fazer em Ilópolis. E em uma dessas viagens eu estava deitada em um travesseiro – que pro meu pequeno corpo virava cama – quando meu pai olhou pra mim ali, assim, branquinha, imóvel, frágil e falou: “se ela morresse agora, eu a colocaria em um caixãozinho de vidro.”
Do quarto do lado, vozes. Da janela da frente, luzes. Do andar de cima passos. Da rua, carros. Da minha cama, insonia.
Rotina V
Junho 4, 2009
Hoje coloquei a tampa na minha pasta de dente. Coloquei as roupas no armário e tirei as louças da pia. Tirei o pó. Tirei o lixo. Desisti de esperar por uma faxineira, afinal, a casa é minha. Organizei minhas maquiagens, meus brincos, meus livros e escolhi a Clarisse pra me acompanhar nesses dias frios.
Mais um desses casos de nostalgia
Junho 1, 2009
E num desses dias frios do começo de junho coloquei um casaco quente do fundo do armário. Lavado pela minha mãe, tinha cheiro de amaciante. Coloquei no sol, passei perfume, tudo para tirar esse odor bom que me traz tantas lembraças. É o teu cheiro de roupa limpa. Será que tu ainda tens? Será que enrolado com tantas outras mulher perdeste teu melhor? Teu cheiro só teu. Teu ar aconchegante que fazia eu me perder em teus finos braços. Que fazia eu sonhar no teu peito quente. Que fazia eu sugar teu pescoço com cheiro de amaciante.
Vermelho
Maio 31, 2009
Acordei com o batom borrado no rosto.
A testemunha.
Naquela noite tínhamos selado nossa conversa com um beijo. Assim como quem assina um acordo de paz.
Rotina IV
Maio 27, 2009
Hoje de manhã saí de casa e esqueci de trancar a porta. Talvez por costume do interior. Se bem que nenhuma cidade, por menor que seja, é segura hoje em dia. Voltei e tranquei todas as fechaduras possíveis. Me tranquei em casa. A rua é perigosa. Virou um faroeste.
Todo mundo é assaltado e tem uma dessas histórias pra contar. Quem, como eu, não tem se diz sorturdo e só espera por seu dia D.
Na semana passada assaltaram um carro na garagem do prédio onde moro. Mesmo com grades altas e cerca elétrica. Os ladrões deram um jeito de burlar toda esse aparato de segurança e arrancar o aparelho de som o automóvel da minha vizinha. Uma coisa tão banal, que acontece em cada esquina, mas me pegou de surpresa quando entrou em meu território. E parece que não é a primeira vez que acontece um episódio de roubo aqui no edifício.
Moral da história: já não estamos protegidos em lugar algum. A rotina vira uma paranóia. Como se fossemos três porquinhos com medo de que o lobo sopre, sopre, sopre e derrube nossa casa seja ela de palha, madeira ou tijolos.
Comédias da vida pública
Maio 27, 2009
Num desses sábados chuvosos de maio resolvi fazer um desses programinhas de solteirona infeliz: ir ao cinema com uma amiga para assistir a comédia romântica e sair de lá sonhando com o príncipe encantado.
Era a primeira vez que eu ia ao novo cinema do shopping IGUATEMI. Sem muitas opções de filmes, até por causa do tema pré-definido por nós. O escolhido foi EU ODEIO O DIA DOS NAMORADOS. O nome prometia uma certa diversão.
Equipadas de muitas guloseimas até rimos da protagonista que tinha um sorriso drogado.
O clímax do filme deveria ser, previsivelmente, quando o mocinho e a mocinha conseguem finalmente ficar juntos e são felizes para sempre. Mas nesse tudo ia muito comédia-romântica até que a protagonista, a que ria doidamente, sai correndo pela rua e de repente pára. Um close nos pés dela, com sapatos rosa-shock e salto-agulha que pisavam em, nada mais nada menos que outra pessoa. Na verdade, era um mendigo, que depois de alguns segundos sendo esmagado olhava para a moço sob ele e perguntava o que foi que eu fiz?. O pior foi todo o cinema rindo. Como diz o velho ditado pimenta no s olhos dos outros é refresco. A desgraça alheia vira piada. Mendigos são palhaços com os quais cruzamos todos os dias nas ruas. Assisti ao resto do filminho atonita. E o que era pra ser diversão acabou como uma frustração social.