Junho 19, 2009

Ah! Tu gostavas de cozinhar. Mais do que de mim. Até me irritava com tua mania de fazer comidinhas caprichadas quando eu só queria uma pizza congelada. 

E o que sobrou de nós? 
Um potinho de curry na despensa.

Junho 16, 2009

Vou esquecer minha bolsa, meus livros, minhas roupas pelo caminho, pelo teu caminho. Quem sabe assim tu segue.

 Tou tentando te mostrar a trilha. Tá na cara. Como eu, babe.

Junho 8, 2009

Então, estou vivendo o que o Caio Fernando Abreu chama de  ”ciclo seco”. Foi essa a melhor denominação que achei pro meu atual estado de espírito. Um fenômeno que ninguém nota. Ajo normalmente. Com descaso e indiferença. Mas cadê a tal alegria de viver? O prazer em fazer as coisas se perdeu pelo caminho. Nada me atrai. Nada me distrai. As coisas de fora já não me atingem e a vida torna-se um marasmo robótico.

Não se confunde com “depressão”, quando você deixa de fazer o que devia, ou com “euforia”, quando você faz em excesso o que não devia. Em ciclo seco faz-se exatamente o que se deve ou não, desde escovar os dentes de manhã ou beber um uísque à tardinha, mas sem prazer. Nem desprazer: em ciclo seco apenas se age, sem adjetivos. A propósito, ciclo seco não admite adjetivos — seco é apenas a maneira inexata de chamá-lo para que, dando-lhe um nome, didaticamente se possa falar nele.

Mas Caio afirma que isso passa. Diz também que todo mundo tem os seus em alguma etapa da vida. Na verdade, nem ligo muito. Na verdade, já não ligo pra nada.

Junho 6, 2009

“tanto clichê deve não ser”

Junho 4, 2009

Minha mãe conta que, uma vez, quando eu era bebe de poucos meses, estávamos viajando. Meus pais faziam muito isso. Viajar, sabe. Não se tinha muito o que fazer em Ilópolis. E em uma dessas viagens eu estava deitada em um travesseiro – que pro meu pequeno corpo virava cama  – quando meu pai olhou pra mim ali, assim, branquinha, imóvel, frágil e falou: “se ela morresse agora, eu a colocaria em um caixãozinho de vidro.”

Junho 4, 2009

Do quarto do lado, vozes. Da janela da frente, luzes. Do andar de cima passos. Da rua, carros. Da minha cama, insonia.

Rotina V

Junho 4, 2009

Hoje coloquei a tampa na minha pasta de dente. Coloquei as roupas no armário e tirei as louças da pia. Tirei o pó. Tirei o lixo. Desisti de esperar por uma faxineira, afinal, a casa é minha. Organizei minhas maquiagens, meus brincos, meus livros e escolhi a Clarisse pra me acompanhar nesses dias frios.

E num desses dias frios do começo de junho coloquei um casaco quente do fundo do armário. Lavado pela minha mãe, tinha cheiro de amaciante. Coloquei no sol, passei perfume, tudo para tirar esse odor bom que me traz tantas lembraças. É o teu cheiro de roupa limpa. Será que tu ainda tens? Será que enrolado com tantas outras mulher perdeste teu melhor? Teu cheiro só teu. Teu ar aconchegante que fazia eu me perder em teus finos braços. Que fazia eu sonhar no teu peito quente. Que fazia eu sugar teu pescoço com cheiro de amaciante.

Vermelho

Maio 31, 2009

Acordei com o batom borrado no rosto.
A testemunha.
Naquela noite tínhamos selado nossa conversa com um beijo. Assim como quem assina um acordo de paz.

Rotina IV

Maio 27, 2009

Hoje de manhã saí de casa e esqueci de trancar a porta. Talvez por costume do interior. Se bem que nenhuma cidade, por menor que seja, é segura hoje em dia. Voltei e tranquei todas as fechaduras possíveis. Me tranquei em casa. A rua é perigosa. Virou um faroeste.
Todo mundo é assaltado e tem uma dessas histórias pra contar. Quem, como eu, não tem se diz sorturdo e só espera por seu dia D.
Na semana passada assaltaram um carro na garagem do prédio onde moro. Mesmo com grades altas e cerca elétrica. Os ladrões deram um jeito de burlar toda esse aparato de segurança e arrancar o aparelho de som o automóvel da minha vizinha. Uma coisa tão banal, que acontece em cada esquina, mas me pegou de surpresa quando entrou em meu território. E parece que não é a primeira vez que acontece um episódio de roubo aqui no edifício.   
Moral da história: já não estamos protegidos em lugar algum. A rotina vira uma paranóia. Como se fossemos três porquinhos com medo de que o lobo sopre, sopre, sopre e derrube nossa casa seja ela de palha, madeira ou tijolos.