Na manicure

Conversa de Salão

Sábado à tarde. Os únicos estabelecimentos abertos na cidadedezinha de 4 mil habitantes são as bodegas mil e os três salões de beleza.

E lá fui eu fazer as unhas. No salão, estavam a proprietária e também manicure (M1)- que foi quem me atendeu – outra manicure, de 16 anos, (M2) e outra cliente (C2).

Agora acompanhe o diálogo interessante entre essas quatro mulheres:

Eu: Homem não presta. Não adianta mais procurar.
M1: Quando o cara é legal e bonito, é gay.
C2: Acho que já se nasce gay.
M2: Dizem que não é genético, mas eu acredito que tem alguma coisa haver.
Eu: Ah, talvez não seja genético, mas acho que tu já nasce com essa tendência e vai manisfestando ao longo da vida.
C2 e M2 concordam.
Eu: Também não acho que seja uma questão de ser, mas sim de gostar. Tu só tem um gosto diferente.
M1: Quem é gay é porque tem um espírito enconstado. Daí tu vai até a Igreja e se liberta e volta a ser uma pessoa normal. Porque a sagrada escritura é clara: varão que nasce varão é varão. Não existe meio termo. Esse negócio de gay é coisa de encosto.
Silêncio constrangedor.
C2: É, sei lá.
E a gente troca de assunto.

Não é à toa que ela ganha quatro reais pelo serviço de manicure. E provavelmente não vai ir muito longe disso.

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Na manicure

Tchau inferno astral

Sou dessas blogueiras chatas que quando atualizam colam o link para meio mundo e ainda querem uma opinião sobre o texto. Numa dessas pesquisas ouvi do Nathan que meus posts eram desnamiadores. Que ao acabar de ler ele se sentia deprimido, triste.

Gostei dessa observação. Achei bonito conseguir transmitir sentimentos pelas minhas palavras na tela.  Mas também fiquei um tanto quanto intrigada com o tipo de sentimento. Nunca tive a mínima intenção de passar tristeza. Na verdade, não sei exatamente o que eu quero passar, nunca refleti mais profundamente sobre isso. Escrevo, só. Mas como eu conseguiria passar alguma coisa mais positiva se vivo em uma tragédia grega?

Ah sim. Sou uma dramaqueen. Juro que tenho motivos para ser assim. Não vou escancarar aqui meus problemas, mas os tempos têm sido difícieis, isso é fato. Ainda mais nesse último mês, quando passei pelo meu inferno astral. Quando descobri que ele existia tudo começou a fazer sentido na minha vida.

Estávamos na manicure da minha amiga Gi, acompanhado ela, e para passar o tempo nos divertíamos com o horróscopo. Leão falava sobre as mudanças boas que aconteceriam com a chegada do novo ano astral, o aniversário, no caso. Nesse momento, instintivamente, a Gi tirou as mãos dos potinhos com água que amaciavam suas cutículas e bradou: “É óbvio! Tu tá vivendo o inferno astral!”. Franzi o cenho clamando por maiores explicações. Ela, voltando ao seu lugar, contou que esse é um período de azar e problemas que sempre acontece durante o mês que antecede o aniversário e aí acaba. Meus olhinhos brilharam diante da descoberta que desvendou o porquê dos meus dias de cão. Minha vida havia mudado. A esperança de que em algumas semanas meu azar me deixaria em paz com os fogos de artifício no começo de um novo e feliz ano me fez encarar tudo de uma forma mais leve e passageira.

Agora meu inferno astral teve fim e estou começando um novo ano. Apesar da exitação inicial, não acreditei sinceramente que tudo iria mudar a partir de agora, que meus problemas sumiriam e eu seria a pessoa mais sortuda do mundo (até porque sorte nunca combinou comigo). Mas minha vida melhorou depois que percebi que até as coisas ruins vão embora. Melhorou, não porque os problemas tenham evaporado, mas porque mudei meu olhar sobre as coisas negativas. E os astros que se preparem, porque ano que vem estarei pronta para encarrar mais um desses infernos.

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Na manicure

Histórias e cutículas

O salão de beleza já tem fama de ser um lugar de chimarrão e fofocas. Muitas mulheres juntas,  óbvio que daria nisso, é instindo. Mas, com certeza o lugar com as histórias mais interessante é o cantinho da manicure. Para muitas essa é a sessão semanal de terapia. Ali, sentada de frente para outra mulher comum, que passa pelas mesmo situações, muitas abrem seus corações. Com a vantagem dessa outra poder opinar e dar conselhos abertos. É uma espécie de divã com lixa de unha.

Essa semana fui a um salão novo. Na verdade sempre tive uma trava para fazer as unhas aqui em Porto Alegre e trair minha manicure do interior, a quem sou fiel há 7 anos e conhece toda minha vida. Mas como não aguentava mais o estado em que se encontrava minhas mãos, tomei coragem e fui. Meio acanhada com a nova profissional, não falei muito, mas ela em compensassão me contou grandes histórias durante aquela uma hora (sim, uma hora) em que fiquei sentadinha na poltrona branca.

No dia em que fui lá, o salão estava cheio, com direito a lanchinhos e tudo. Mas Paty estava indignada que com seu ficante porque na noite anterior ele tinha ido há churrasco com seus amigos e muitas “piriguetis”. Com seu jeito enérgico encenou para mim qual seria a repercução dessa atitudele dele. A resposta à essa afronta viria pro messenger e seria uma conversar breve e determinante “Oi, como tava o churrasco? ADEUS!”. Mas, no fim das contas, ela prefiriu sair com seu amigo gay e desligar o celular. Talvez porque a conversa no MSN soaria infantil, talvez porque ele poderia responder com um adeus recíproco.

Com seus 35 anos, Paty, formada em hotelaria ganha melhor fazendo unhas, e certamente se diverte mais. Um filho de 17 anos, que até hoje foi seu único amor verdadeiro. Apesar da maternidade ser linda, ela passsou maus pocados para criar e educar seu filho. Me aconselhou a não ter mais de um. Agora ela “fica” há algum tempo com um cara que tem medo de compromissos. Tem um amigo gay que ela usa para fazer ciúmes no cara que não gosta de compromissos. Já foi flertada por um gordo-galinha, namorado de uma amiga-cliente, que foi morrar com outro homem mais velho e bem sucedido na Espanha, mas voltou três meses depois porque descobriu que, na verdade, amava o gordo-galinha, com quem ela está até hoje e tem um filho. A Paty fuma muito, mas é um hábito que ela não vai largar, mesmo sabendo dos malefícios. A nora dela tem unhas enormes, que só servem para coçar as costas e juntar sujeira. Segundo a Paty, e ela entende disso, unhas compridas estão fora de moda, são bregas.

Ela é só uma mulher comum, sofrendo pelos motivos tolos que todas nós sofremos algum dia. Muito afim de falar e muito afim de escutar, a manicure faz o tempo em que ficamos ali sentadinhas imóveis passar muito mais rápido e ainda nos dá um colorido há mais e nos livra das malditas cutículas.

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